domingo, 29 de novembro de 2009

História da Indumentária - Civilizações Egéias

Indumentária das Civilizações Egéias (Creta e Micenas)


Época: Idade do Bronze. Local: ao longo das costas e nas ilhas do mar Egeu do ano 3.000 a.C. a 1.400 a.C.
Vestimenta: período mais interessante de 1750 a.C. a 1.400 a.C., época da construção do Palácio de Cnossos.
Roupas “primitivas”, isto é, a vestimenta masculina consiste numa tanga, deixando o tronco nu.
As roupas cretenses eram cortadas para se ajustarem ao corpo e também drapeadas.

Vestimenta feminina: apresenta uma série de babados, cintura bem apertada e corpete que termina sob os seios.

Tanga masculina mais variada que a egípcia, podia ser de linho, lã ou couro.


Mulheres: tanga primitiva alongada até tocar o solo. Superposição de pedaços de tecido cria efeito semelhante à moda européia do final do século 19.
A cintura muito apertada acentua esta semelhança. O resultado é tão ‘moderno’ que uma figura recebeu o apelido de “A Parisiense”.

Homens usam cintos às vezes adornados com placas de metal, ou totalmente feito em metal (ouro, prata e bronze).




Em geral, os homens não usam nada na cabeça. Às vezes, usam um turbante ou gorro. Mulheres usam adornos mais elaborados.


Cabelos penteados de diversas formas e arrematados com os primeiros “chapéus elegantes”.



Cretenses: paixão pelas cores fortes: vermelho, amarelo, azul e roxo.
Jóias (em grande quantidade) descobertas em tumbas de homens e mulheres: anéis, braceletes, golas, presilhas de cabelo.

História da Indumentária - Civilizações Egéias

ARTE CRETENSE
Escultura

Cabeça de touro, rhyton, séc. XVI a.C. (Acima). Deusa ou sacerdotisa das serpentes, ca. 1.450 a.C. (abaixo)

A escultura monumental é praticamente ausente, mas há muitos objetos de pequenas dimensões: estatuetas masculinas e femininas em terracota, bronze, marfim. E também selos, vasos de terracota, taças, jóias, copas e punhais com incisões em lâminas de metal precioso.

Arquitetura


O palácio de Cnossos era a sede do poder civil, militar, religioso e de várias outras atividades. Os funcionários do palácio geriam tudo com grande eficiência e mantinham uma ordenada contabilidade.

No Palácio eram produzidos manufaturados de todos os tipos e se conservavam as reservas alimentares. Trabalhadores eram alimentados e alojados no palácio – podiam ser escravos ou recebiam pagamento in natura.


Cnossos demonstra que a riqueza estava concentrada na mão de poucos senhores, que possuíam as terras e os instrumentos de produção. O Palácio era um imenso complexo de construções, mas não era uma fortaleza.

Em volta de um grande pátio retangular cerca de 400 aposentos eram ligados por escadas, corredores e pátios menores. Pode ter tido mais de um andar. Os cômodos eram repartidos por suas funções (habitação, recebimento, serviço).

Os interiores eram bem arejados e iluminados com portas e janelas. As instalações hidráulicas eram muito avançadas. Os palácios eram servidos por esgotos subterrâneos e tubos que levavam água da chuva aos aposentos, provenientes de fontes nas montanhas ou extraídas de poços.

O palácio era tão intrincado que fez surgir a lenda do labirinto. A palavra labyrinthos significa palácio, mas foi usada pelos gregos para designar um lugar no qual é difícil se orientar. Esse Labirinto teria sido construído pelo rei Minos para aprisionar o Minotauro.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

História da Indumentária - Civilizações Egéias

Arte Cretense - Pintura

"A Parisiense", afresco, Palácio de Cnossos, ca. 1.400 a.C.

Pinturas belíssimas foram encontradas em Cnossos, Haghia Triada e Thera.

Os palácios (na verdade, eram mais cidades-palácios) eram decorados por afrescos que eram realizados sobre estuque branco com cores fundamentais: preto, vermelho, ocre e turquesa, sobre fundo branco.

Um dos mais belos afrescos de Cnossos representa uma Tauromaquia (luta com o touro) (séc. XVII – XV a.C.). Além do gosto pela combinação de cores vivas, a pintura cretense mostra uma grande sensibilidade linear e elegância dos contornos.

"Tauromaquia", afresco, Palácio de Cnossos, ca. 1.400 a.C.

As figuras representadas de perfil tinham os olhos desenhados de frente, aumentados e alongados, de forma que a expressão dos olhos mostra uma estranha intensidade.

"Príncipe dos Lírios", afresco, Palácio de Cnossos, ca. 1.400 a.C.
Rostos de pinturas em Creta (A - F) e no Continente grego (G - K)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

História da Indumentária - Civilizações Egéias

Civilização Minóica (Minoana) Cretense

A civilização cretense toma seu nome da Ilha de Creta. Em Creta, as escavações arqueológicas trouxeram à luz os testemunhos mais importantes dessa civilização. Creta estava numa posição privilegiada, em contato com os povos mais avançados do III milênio a.C. Suas relações com o Chipre, Egito e o Levante são as bases do desenvolvimento de sua civilização. Cnossos e Festos (ou Faistos), duas grandes cidades, dividem inicialmente o território da ilha. Mais tarde, Creta é unificada sob o domínio de Cnossos. A civilização cretense é agrícola e marítima. Creta possui uma poderosa frota, goza de paz e prosperidade. Graças ao comércio marítimo, a ilha alcança uma imensa riqueza.

Barco minoano, miniatura em barro, ca. 2.160 - 1.650 a.C.

Palácio de Cnossos

Arte - Conhecimentos básicos

Localizada no centro do Mediterrâneo, ponto de encontro entre a Europa, o Egito e o Oriente, Creta torna-se o centro de uma arte refinada, que reflete uma esplêndida vida na corte.

Comparada à arte egípcia, a arte cretense é menos monumental e menos solene. Os temas representados nas pinturas têm significado mais profano que religioso. A arte está mais ligada à decoração e a objetivos práticos.

Arthur Evans, primeiro arqueólogo a escavar as ruínas de Cnossos subdividiu a civilização cretense (ou Minóica ou Minoana – do rei Minos)
em três períodos:

  • Minóico Antigo - das primeiras povoações no IV milênio a.C. até 2.100 a.C.
  • Minóico Médio - de 2.100 a 1.580 a.C.
  • Minóico Recente - de 1.580 a 1.200 a.C.

Sir Arthur Evans


O Minóico Médio foi o período mais brilhante. Nesse período, a economia é florescente. Proprietários, produtores e comerciantes vivem com luxo e conforto, em casas belas e confortáveis, cheias de objetos de arte.



Anel de ouro de Isopata representando dançarinas ou sacerdotisas, séc. XIV a.C.

Afresco das "três rainhas", Palácio de Cnossos

As mulheres gozam de liberdade, prestígio e influência que só serão encontrados depois, no mundo antigo, entre os etruscos.

Não conhecemos bem a sua religião. Algumas rochas são cultuadas como moradias de espíritos. Algumas plantas simbolizam o ciclo da vida. O touro e a pomba representam os princípios masculino e feminino.

Por volta de 1.750 a.C. os palácios de Cnossos e Faistos foram destruídos (talvez por um terremoto) e reconstruídos logo depois. Por volta de 1.400 a.C. a invasão dos AQUEUS destrói os mais importantes centros e a civilização cretense.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

História da Indumentária - Civilizações Egéias

As civilizações Egéias
Os povos da Idade do Bronze no Mediterrâneo - Origens míticas

Os gregos não chegaram a conhecer a civilização cretense, desaparecida muitos séculos antes deles, mas através de tradições orais muito antigas, contavam mitos a respeito da ilha de Creta e de seu poderoso rei Minos. A lenda do Minotauro reflete a antiga tradição de que os minóicos teriam dominado as cidades da Grécia Continental durante algum tempo.

Deusa das serpentes - estatueta minóica, ca. 1.700 a.C.
Afresco dos Golfinhos, Mégaron da Rainha, Palácio de Cnossos, Creta

A lenda do Minotauro - Minos, Pasífae e o Touro

Minos era filho de Zeus e de Europa, e reinava na ilha de Creta. Poseidon, deus do mar, fizera sair do mar um touro belíssimo para provar que Minos era favorecido pelos deuses e foi assim que o rei Minos subiu ao trono de Creta. Minos prometera sacrificar o touro a Poseidon, mas conservou-o em seu rebanho.

O deus, furioso, vingou-se enlouquecendo o touro e fazendo-o causar grandes estragos em toda a ilha. Poseidon também fez com que Pasífae, esposa de Minos, se apaixonasse pelo animal. Transtornada de desejo, Pasífae convenceu Dédalo, ateniense exilado em Creta, a construir uma vaca oca de madeira dentro da qual a rainha se escondeu. Assim, a rainha uniu-se ao Touro sagrado.

Mais tarde, o touro foi vencido por Héracles. Pasífae deu à luz uma criança com corpo de homem e cabeça de touro, o Minotauro, que se alimentava de carne humana. Minos mandou Dédalo construir um intrincado labirinto, do qual ninguém conseguia sair e o Minotauro foi encerrado dentro do Labirinto.

Pasífae e o Touro, arte grega (vaso de figuras vermelhas)



Teseu e o Minotauro

Andrógeos, filho de Minos e Pasífae, grande atleta, foi morto à traição, em Atenas, depois de vencer um concurso de atletismo. Seu pai, Minos, declarou guerra ao rei de Atenas, Egeu. Vencedor, ordenou que os atenienses pagassem o seguinte tributo: mandar anualmente a Creta sete rapazes e sete moças, para serem oferecidos ao Minotauro.
O filho do rei Egeu, Teseu, estava fora de Atenas. Ele voltou na época da terceira remessa de jovens a Creta e fez questão de ser um deles. Queria vencer o monstro e livrar a cidade. Seu pai, Egeu, concordou a contragosto. Combinou um sinal com o filho: se tudo corresse bem, o navio retornaria com velas brancas; caso contrário, com velas negras. Quando desembarcaram em Creta, Ariadne, filha de Minos, apaixonou-se por Teseu. Deu-lhe um rolo de fio para marcar o caminho dentro do Labirinto e poder sair dele. Teseu enfrentou então o Minotauro e venceu-o.
Após sabotar os navios cretenses para evitar qualquer perseguição, Teseu voltou a Atenas com os companheiros e Ariadne. Porém, no caminho, abandonou Ariadne na ilha de Naxos. Logo depois, o deus Dioniso recolheu Ariadne e fez dela sua esposa. Teseu esqueceu-se, também, do que combinara com o pai, e deixou as velas negras no navio. Egeu, que aguardava Teseu na acrópole, pensou ter perdido o único filho e lançou-se ao mar, do alto da acrópole. Em sua homenagem o Mar Egeu tem esse nome.
Teseu e o Minotauro, arte grega (vaso de figuras negras)



Os mitos gregos, assim, relatam elementos que muitos séculos mais tarde, foram encontrados na arte e na cultura Egéia. Nas Ilhas Cíclades, Chipre e Mediterrâneo Oriental por volta do 3º Milênio a.C. temos uma intensa atividade cultural com intercâmbios com o mundo Oriental. Chipre desenvolve sua cultura em contato com o Egito, com Creta e com o Levante (os países do Mediterrâneo oriental).

O maior apogeu da cultura cipriota ocorre por volta de 1.200 a.C.

As culturas que formam o passado remoto da Grécia são:
  • Civilização Cretense - (Minóica ou Minoana)
  • Civilização Cicládica - (Ilhas Cíclades e Chipre)
  • Civilização micênica - (Continente Grego)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

História da Indumentária - Antigo Egito


Chinelos de fibra de junco, período tardio.
Tutancâmon e sua rainha, XVIII dinastia, 1350-1340.

Faraó Akhenaton e Nefertiti, 1550-1330 a.C.




Calçados

Os povos que viviam em torno do Mediterrâneo tinham pouca necessidade de calçados elaborados, com exceções, como os hititas em suas terras altas da Anatólia, que usavam sapatos com pontas viradas para cima, embora os hititas retratados em relevos egípcios estivessem sempre descalços.

Os egípcios ficavam descalços a maior parte do tempo, mas usavam sandálias em ocasiões especiais,[1] ou em ocasiões em que os pés estivessem propensos a se machucar.

As sandálias eram amarradas com duas tiras de couro, e quando elas terminavam em pontas, estas eram muitas vezes viradas para cima. As sandálias eram feitas de couro[2], fibras de junco ou tecidos costurados juntos, e muitas vezes possuíam solas de couro e correias.

As sandálias mais baratas eram acessíveis a todos, exceto os muito pobres. Ipuwer, em suas “Admoestações” usou a falta de sandálias para descrever os indigentes que, no caótico e louco mundo do qual ele falava, alcançaram uma grande riqueza: “Eles, que não podiam pagar por sandálias, agora estão ricos”.[3]

Os reis usavam, em algumas ocasiões, sandálias elaboradamente decoradas, e às vezes também luvas decorativas, mas em geral eles eram representados descalços, assim como os deuses.


[1] Na vida pós-morte devem-se usar sandálias brancas para encontrar os deuses, assim como deveria ser feito em vida durante os rituais no templo:

No serviço mensal, vestir as sandálias brancas,
Visitar o templo, [observar] os mistérios,
Entrar no santuário, comer o pão na casa de Deus ...

“Instrução dirigida ao rei Merikare”, M. Lichtheim, Ancient Egyptian Literature, vol. 1, p. 102.

[2] M.Lichtheim, Ancient Egyptian Literature, Vol. 1, p. 151.

[3] Ibidem.

História da Indumentária - Antigo Egito




Adereços de cabeça

Em geral, podemos ver através das representações, que os egípcios comuns não usavam qualquer adereço na cabeça.
Perucas eram usadas em ocasiões especiais, e elas cresceram bastante durante o Novo Reino. Já os faraós são sempre representados com suas coroas, mas não sabemos se isto é mera convenção pictórica ou se eles realmente usavam estas coroas no dia-a-dia.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

História da Indumentária - Antigo Egito


Barco funerário, tumba de Haremhab. Reprodução de Norman de Garis Davies (1865-1941), Expedição do Metropolitan Museum of Art. Novo Reino, Reinado de Haremhab, ca. 1295–1186 a.C.



Consertos e Remendos

Antes do advento das técnicas de produção industrial, quando a maioria da população era muito pobre, as roupas consistiam parte considerável das despesas cotidianas.

Embora as roupas dos egípcios fossem bem leves e nem sempre essenciais para a sobrevivência, eles tinham bastante cuidado com suas roupas e, quando rasgavam algum traje, era provavelmente a dona-de-casa egípcia que a remendava, com agulha, faca e alguns pedaços de fio.

Alguns artigos de vestuário encontrados em tumbas mostram evidências de terem sido remendados várias vezes até serem, finalmente, reciclados e transformados em alguma outra coisa.


História da Indumentária - Antigo Egito

Lavandeiros na tumba de Ipuy em Deir el-Medina
Bastão usado para 'bater' as roupas, Deir el-Medina
Lavandeiros na Tumba de Khnum-hotep em Beni Hasan
Cena de lavagem do linho na tumba de Ipuy em Deir el-Medina
Rol de roupas com instruções (marcas) para lavagem



Lavagem de roupas



"Eles usam roupas de linho, que são especialmente cuidadas para estarem sempre limpas e frescas".
Heródoto, Euterpe, 2.37.1


A limpeza aparentemente estava ligada à santidade no Antigo Egito. E ninguém estava mais próximo aos deuses do que o Faraó. Desde os seus primórdios, os títulos de “chefe de lavagem do palácio” e “lavador do faraó” foram utilizados, e manter as roupas reais brancas como o lírio era dever do “clareador chefe”.[i]

A lavagem manual de roupas era um trabalho duro. O sabão era desconhecido pelos antigos egípcios, que usavam então a lixívia, feita de óleo de rícino e salitre ou algumas dessas substâncias, ou detergentes feitos de saponária (Saponaria oficinallis) ou asfódelo (Crinum zeylanicum). A roupa era batida, lavada e torcida por pares de trabalhadores. Por volta de 1.200 a.C. havia caldeiras à prova de fogo nas ‘lavanderias’, e a água quente facilitava um pouco o trabalho de remoção de manchas e sujeira.

Muitas pessoas, sobretudo as mais pobres, não tinham acesso a estas instalações e tinham que lavar a própria roupa, às vezes sob condições difíceis. Lavar roupas à margem dos rios ou dos canais, tinha a vantagem de não ter de se transportar uma grande quantidade de água pesada em potes de barro, mas podia ser perigoso ou mal-compreendido. Pelo menos aos olhos de Kheti, lavar a roupa da mulher não era realmente o trabalho digno de um homem fazer. Ele diz depreciativamente de um lavandeiro:

“O lavandeiro lava às margens do rio

E está próximo ao crocodilo.

‘Pai, saia da água corrente!’

Dizem seu filho e sua filha.

Isto não é profissão que possa contentar ninguém,

Muito menos que qualquer outra profissão,

Pois seu alimento é misturado à merda,

E nenhuma parte dele está limpa.

Ele lava as roupas de baixo de uma mulher

menstruada;

ele chora, ao passar o dia num quarto de lavagens".

“As instruções de Dua-khety”, Reino Médio, in: Erman, Adolf (1927): The literature of the ancient Egyptians; poems, narratives, and manuals of instruction, from the third and second millennia B. C.London, Methuen & co. ltd., pp. 67f.

[i] “Oriental Costumes: Their Designs and Colors” de Max Tilke, 1924.


História da Indumentária - Antigo Egito

Amenhotep III e sua mãe, Mutemwia, reprodução de Nina de Garis Davies (1881-1965) de um mural de tumba em Tebas; expedição egípcia do Metropolitan Museum of Art. Novo Reino, reinado de Amenhotep III
ca. 1390–1352 a.C.

Portadores de oferendas, Reino Médio, 1981-1975 a.C., Metropolitan Museum, N. York. Gesso e madeira pintada e linho.
Estatueta de Wah em madeira de cedro, gesso, tinta e linho. Reino Médio, 1981-1975 a.C., Metropolitan Museum, Nova York.


As kalasiris eram feitas a partir de um pedaço retangular de pano com cerca do dobro do comprimento desejado. Uma abertura para a cabeça era cortada no centro do pano, dobrado ao meio. As partes inferiores e dos lados eram costuradas, deixando aberturas para os braços.

Os vestidos femininos eram, às vezes, ornamentados com miçangas. Eles cobriram os seios na maioria das vezes, embora houvesse períodos em que a ‘moda’ era deixá-los a mostra.

Capas circulares começaram a ser usadas no Antigo Reino. Elas eram geralmente feitas de linho e tinham uma abertura para a cabeça cortada no centro, sendo freqüentemente tingidas, pintadas ou decoradas de outra forma, cobrindo os ombros ou um pouco mais. Xales às vezes eram usados durante o Novo Reino.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

História da Indumentária - Antigo Egito

"Camisa" de um kalasiris de um túmulo egípcio do Novo Reino, ca. 1400 a.C.



O comprimento dos saiotes era variado, sendo curto durante o Reino Antigo ou chegando até a altura da panturrilha durante o Reino Médio; muitas vezes era complementado por uma camisa sem mangas ou uma túnica mais longa.
As vestes usadas por ambos os sexos, no Egito, eram chamadas ‘kalasiris’ por Heródoto. Seu material e corte variaram ao longo dos séculos, embora o tecido preferido fosse sempre o linho.
As mulheres usavam kalasiris com alças em um ou ambos os ombros. Na parte superior, ele poderia começar do pescoço até o busto, enquanto a bainha inferior geralmente chegava aos tornozelos ou às panturrilhas. Alguns tinham mangas curtas, outros eram sem mangas, podendo ser desde muito justos até bem soltos no corpo. Eram muitas vezes usados com cintos que uniam as dobras do tecido.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

História da Indumentária - Antigo Egito

Alguns tipos de plissado egípcioRoupas do faraó Tutancâmon encontradas em sua tumba


Da esquerda para a direita, egípcio seguido por estrangeiros de diversas nacionalidades


O vestuário cotidiano em geral não tinha enfeites, embora o pregueamento (plissado) fosse conhecido desde o Antigo Reinado, quando alguns trajes das classes egípcias superiores eram pregueadas horizontalmente. No Novo Reinado as pregas tornaram-se frequentemente verticais, embora o plissado pudesse ser bastante intrincado.
Uma peça de roupa do Médio Reinado apresenta três diferentes tipos de pregueado: uma parte é plissada com pregas a alguns centímetros de distancia, outra com pregas muito estreitas e uma terceira parte é uma mistura de pregas horizontais e verticais que se entrecruzam. Não sabemos como os egípcios faziam seus plissados, mas supõe-se que teria sido extremamente trabalhoso*.


(*) NICHOLSON, Paul T., SHAW, Ian. Ancient Egyptian materials and technology, Cambridge University Press, 2000, pp.281f.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

História da Indumentária - Egito Antigo

Reprodução de um afresco egípcio que representa uma tribo semita (talvez hebreus) e suas roupas coloridas de pele seguindo um funcionário egípcio, que usa o saiote de linho branco.


ESTILO

As roupas eram geralmente feitas de linho, de formatos muito simples: uma tanga curta que lembrava um saiote para os homens e um vestido com alças para as mulheres. Estas peças básicas sofriam pequenas variações de acordo com a “moda”, status social e riqueza, e não se alterou fundamentalmente ao longo de toda a história do Egito. As roupas eram enroladas em volta do corpo e mantidas no lugar por um cinto.
Sua cor era geralmente de branca ou esbranquiçada, em contraste com as coloridas roupas dos estrangeiros representados na arte egípcia, embora o tingimento não fosse desconhecido pelos egípcios.







quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Lançamento editorial - minha última tradução


Será lançado na próxima quinta-feira o livro que foi a minha última tradução, com a presença do organizador dos textos, o professor e historiador italiano Massimo Montanari. Eu, infelizmente, não poderei comparecer porque estarei trabalhando, mas posto aqui o convite que está sendo enviado pela Editoras Estação Liberdade e SENAC.

Diversidade cultural na cozinha de todos os povos

Livro organizado pelo historiador italiano Massimo Montanari, com artigos de renomados historiadores como Jean-Louis Flandrin e Bruno Laurioux, discute o papel da culinária como criadora da identidade e representação social. E mostra de que forma a comida se relaciona com a linguagem humana e como produz intercâmbios culturais.
"A comida é uma forma de conexão entre diversas culturas. Conservadoras, embora nada estáticas, as tradições alimentares e gastronômicas são extremamente sensíveis às mudanças, à imitação e às influências externas. Cada tradição é o fruto – sempre provisório – de uma série de inovações e das adaptações que estas provocaram na cultura que as acolheu”, afirma o professor de história da alimentação da Universidade de Bolonha (Itália), Massimo Montanari.
Essa é a essência de O Mundo na cozinha: história, identidade, trocas (Editora Senac São Paulo e Estação Liberdade). O livro investiga o fluxo de ideias que influenciou a construção de identidades culinárias, além de explicar e reconstituir os percursos das trocas entre diferentes sociedades.
O organizador Massimo Montanari, uma das principais referências mundiais na área, vem ao Brasil pela primeira vez para lançar a obra, em duas ocasiões: ministra a palestra Não há Inovação sem raízes, não há raízes sem inovação - seguida de autógrafos, no evento Semana Mesa SP 2009, dia 28 de outubro, às 12h; autografa também na livraria Cultura – Conjunto Nacional, dia 29 de outubro, às 19 horas.
Fruto de uma conferência realizada na Universidade de Bolonha, em outubro de 2000, a obra traça um vasto panorama do intercâmbio gastronômico e cultural no mundo, especialmente, na Europa, Ásia, África e Américas. Em oito textos, especialistas estrangeiros em história, antropologia e sociologia mostram como a alimentação se equipara a linguagem, criando intersecções entre diferentes povos.
Os artigos debatem também como a comida auxilia na intermediação entre culturas, proporcionando invenções e contaminações, e, mostram porque as identidades mais fortes são aquelas mais abertas ao exterior. “O livro discute como o mundo e sua diversidade está presente na cozinha de todos”, diz Montanari.
Para demonstrar essa tese, no artigo de abertura, o professor italiano dá como exemplo a cultura européia da Idade Média. Segundo o historiador, a civilização que surge na Europa, naquela época, é fruto da combinação da tradição romana com a tradição germânica: ao uso do pão, vinho e azeite soma-se a utilização da carne, da cerveja e da gordura animal. “Deriva daí um modelo inédito de produção e de consumo, onde a carne (principalmente a carne de porco) desafia o pão como ‘valor forte’ do sistema, numa dinâmica de integração recíproca, tanto econômica quanto simbólica, que representa, em minha opinião, um dos episódios mais interessantes da história da cultura alimentar”, avalia ele.
Há importantes debates sobre a trajetória da permuta cultural na gastronomia européia – antiga e moderna - e da culinária hebraica, por exemplo, uma cozinha que sofre com a conversação da própria identidade. Ariel Toaff, professor da Universidade Bar-Ilan (Israel), mostra de que maneira o preparo e as restrições às comidas judaicas ultrapassou a origem étnica dos hebreus e se mesclou às demais culturas, como a européia. Toaff demonstra que as imigrações de judeus para a Itália fizeram com que as comidas kasher fossem incorporadas por cristãos e vice-versa. “É um fato incontestável que os hebreus italianos foram menos rígidos nas proibições alimentares no que diz respeito ao consumo de pães, vinhos e queijos”, diz o especialista.
Discussões contemporâneas também estão presentes nos ensaios, como o relacionamento entre as culturas locais e o mercado global. Autores, como o francês Jean-Peirre Devroy, explicam porque a noção de território e da culinária regional é uma invenção recente. Nesse contexto, o texto de Devroy debruça-se sobre o caso do Champagne, para falar da exportação de território.
Um estudo de caso sobre a cidade de Bolonha, na Itália, finaliza o livro. Escrito pelo organizador Massimo Montanari, o texto revela como a região tornou-se centro difusor da gastronomia européia. Segundo o historiador, o modelo bolonhês foi construído principalmente a partir da capacidade de conexão com outras culturas culinárias, integrando essas descobertas à sua identidade.

O ORGANIZADOR

Massimo Montanari é professor de história econômica medieval e história da alimentação na Universidade de Bolonha. Entre seus trabalhos mais importantes estão: A alimentação camponesa na Alta Idade Média (Nápoles, 1979); A administração curtense na Itália (com B. Andreoli, Bolonha 1983); Campos medievais (Turim, 1984). Para a editora Laterza publicou: Convívio (3 vol., 1989-1992); História da alimentação (organizada com J.-L. Flandrin, 1999); A panelinha mágica (1999); Alimentação e cultura na Idade Média (1999); A culinária italiana. História de uma cultura (com A. Capatti, 2000); A fome e a abundância (2000), traduzido em doze línguas, e História medieval (2002). Publicou dois livros no Brasil: História da Alimentação (Estação Liberdade, 1998) e Comida Como Cultura (Senac São Paulo, 2008).


OS AUTORES E OS TEXTOS


Antoni Riera-Melis


O Mediterrâneo, crisol de tradições alimentares. A herança islâmica na culinária catalã medieval


Bruno Laurioux


Identidades nacionais, peculiaridades regionais e koiné europeia na culinária medieval


Jean-Louis Flandrin


A moderna cozinha europeia: uma encruzilhada de experiências culturais (Séculos XVI-XVIII)


Françoise Sabban


A cozinha cosmopolita do imperador da China no século XIV


Jack Goody


A comida africana na cultura “branca” e na cultura “negra”


Dominique Fournier


A cozinha da América e o intercâmbio colombiano


Ariel Toaff


Cozinha judaica, cozinhas judaicas


Jean-Pierr e Devroey


“Champagne!”, ou a exportação do território


Massimo Montanari


Bolonha gorda. A construção de um mito


domingo, 25 de outubro de 2009

O Futuro nos Vingará! Evolution Rules!

Fernando Botero, "Colombiana", 1999.
Pieter Pauwel RUBENS, "As Três Graças", 1639, Museo del Prado, Madri.



Olha que interessante esta matéria que saiu na Folha de São Paulo Online, Ciência, em 20/10/2009

Mulher do futuro será menor, mais gordinha e mais fértil, diz estudo da New Scientist

As mulheres do futuro serão levemente mais baixas e rechonchudas, terão corações saudáveis e um tempo reprodutivo mais extenso. Estas mudanças são previstas a partir de extensas provas para documentar que o processo evolutivo ainda atua sobre os humanos.
Os avanços médicos significam que muitas pessoas cujas mortes ocorreriam durante a juventude agora vivem até a terceira idade. Isso leva a uma crença de que a seleção natural não afeta seres humanos e que estes, portanto, pararam de evoluir.
"Isso é simplesmente falso", disse Stephen Stearns, biólogo evolucionista da Universidade de Yale. Ele afirma que, embora as diferenças na sobrevivência já não possam mais selecionar aqueles com maior aptidão e seus genes, as diferenças na reprodução ainda podem. A questão é se mulheres que têm mais crianças possuem esses traços distintivos, que elas repassariam aos seus descendentes.
Para desvendar a questão, Stearns e seus colegas trabalharam com dados do Framingham Heart Study, que trazia o histórico médico de mais de 14 mil residentes da cidade de Framingham, Massachusetts, desde 1948 --que englobam três gerações em algumas famílias.

Passando adiante
A equipe estudou 2.238 mulheres que haviam passado da menopausa, e então cruzaram os dados com as respectivas vidas reprodutivas. Para este grupo, a equipe de Stearns testou a altura, peso, pressão arterial, colesterol e outras características correlacionadas com o número de crianças a que elas deram à luz. Eles controlaram alterações devido a fatores sociais e culturais, para calcular o quão forte é a seleção natural para moldar estas características fisiológicas.
E é muito, segundo se confirmou. Mulheres mais baixas e gordas tendem a ter mais filhos, em média, do que outras, mais altas e magras. Mulheres cujos colesterol e pressão eram baixos também tinham mais filhos, e --não surpreendentemente-- tiveram seu primeiro na juventude e entraram na menopausa mais tarde. A surpresa foi que estas características foram passadas para suas filhas que, por sua vez, também tiveram mais crianças.
Caso a tendência persista por dez gerações, calcula Stearns, a mulher média em 2409 será 2 cm mais baixa e 1 kg mais pesada do que ela é atualmente. Ela dará à luz o seu primeiro filho cinco meses mais cedo e entrará na menopausa dez meses mais tarde, em relação à média atual.
Decodificação de cultura
É difícil dizer o que direciona para estas características, e discernir se elas estão sendo disseminadas por genes de mulheres, mas, pelo fato de Stearns controlar muitos dos fatores sociais e culturais, é provável que isso tenha resultado em um documento genético, em vez de um trabalho acerca de evolução cultural.
Não é o primeiro estudo concluindo que a seleção natural está "operando" nos humanos atualmente; a diferença é que muitos dos trabalhos anteriores foram concluídos de diferenças geográficas nas frequências de genes, e não de avaliações diretas do sucesso reprodutivo. Isso deixa o estudo de Stearn como, talvez, a mais detalhada medição da evolução humana atual.
"É interessante que o quadro biológico subjacente ainda é detectado sob a cultura", diz ele. Análises a longo prazo de outros conjunto de dados médicos pode jogar mais luzes sobre a interação entre genética e cultura.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

História da Indumentária - Antiguidade

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Imagens (de cima para baixo):
1) Fac-símile da pintura da tumba de Ramsés III, Novo Reino, Dinastia 20, ca. 1184-1153 a.C. Metropolitan Museum, N. York.
2) Relevo de Tutmósis I, Novo Reino, Dinastia 18, ca. 1504-1492 a.C. Fac-símile colorido de Nina de Garis Davies (1925). Metropolitan Museum, N. York.
3) Colar e anéis, Reino Médio, Dinastia 12, reinado de Amenemhat I, ca. 1975 a.C. Do túmulo de Wah, Tebas Ocidental. Cornalina e linho torcido; esteatita azul e linho; turquesa, cornalina, ágata-musgo, ametista, quartzo leitoso, esteatita verde e fio de linho torcido. Metropolitan Museum.
4) Duas princesas, Novo Reino, Dinastia 18, reino de Akenathon, ca. 1.349-1336 a.C. Calcário com restos de tinta. Metropolitan Museum.



Egito Antigo - Artigos de vestuário


“Eles usam túnicas de linho com franjas penduradas sobre as pernas, chamadas de "calasiris", e capas soltas de lã brancas sobre elas”.

Heródoto, Histórias 2,81

O túmulo de Tutancâmon preservou muitas peças de roupa: túnicas, camisas, saiotes, aventais e cintos, meias, vestidos com capuzes, barretes, cachecóis, manoplas e luvas, algumas delas forradas de linho fino, outras o indicador e os dedos médios separados e um buraco para o polegar. Roupas de baixo (principalmente ‘cuecas’) em forma de uma tanga triangular também foram encontradas.

Se a família real tinha uma roupa para cada parte do corpo e para todas as ocasiões – embora as estátuas e relevos os mostrem geralmente usando apenas um saiote e uma coroa – a maioria das pessoas tinha que se contentar com muito menos peças de roupas.

As roupas eram caras e no clima quente do Egito, em geral as pessoas usavam o mínimo possível delas.

Se pudermos confiar nas representações artísticas, nas festas os escravos e as servas usavam pouco mais do que calções sumários e jóias, embora possa-se supor que a razão para esta semi-nudez não se tratasse de uma falta de recursos.

Mulheres trabalhadoras em geral usavam um tipo curto de kalasiris. Homens ocupados em trabalhos físicos usavam uma tanga, um amplo traje do tipo galabiyeh (vestimenta árabe, ver imagens), ou, ao trabalhavam nus (na água, por exemplo). As crianças geralmente corriam nuas durante os meses de verão, e usavam mantas e capas no inverno, quando as temperaturas podem cair abaixo de 10ºC.

Os deuses tinham que se vestir bem. Este era o dever de um pequeno número de sacerdotes autorizados a entrar no local mais sagrado do templo, onde ficava a estátua do deus.

Neshuor, comandante da fortaleza em Elefantina em Apries, cuidava para que o templo de Khnum tivesse todos os funcionários necessários para atender às necessidades do deus:

“Nomeei tecelões, servas e lavadores de roupas para o augusto guarda-roupa do grande deus e sua divina enéade*”

Estátua de Nesuhor, Louvre.


(*Enéade, tradução grega para a palavra egípcia Pesedjet, significa um grupo de nove deidades).


Lançamento de tradução



Pessoal, este é meu último trabalho de tradução, vai ser lançado e é um livro extremamente interessante. Embora eu mesma talvez não possa ir ao lançamento (trabalho neste horário) vou pedir à editora que peça ao autor para autografar meus dois exemplares (que eu espero eles me enviarão, como de praxe).

[Cliquem na imagem para vê-la inteira]

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

ARTE




1) Vincent VAN GOGH, Auto-retrato, 1889, Musée D'Orsay, Paris
2) Paisagem com uma casa e um trabalhador, outubro de 1889, Hermitage, São Petersburgo.


Reprodução de matéria publicada no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, 15/10/2009

O método Van Gogh

Mostra, livros e site trazem o mais completo estudo sobre as cartas do artista holandês e vão contra a ideia de que a impulsividade o ajudou a criar



RAQUEL COZER
DA REPORTAGEM LOCAL

Vincent van Gogh agradeceu por carta os 50 francos recebidos do irmão Theo, que era quem pagava suas contas.
"Talvez eu gostasse de escrever sobre muitas coisas, mas a vontade passou a tal ponto que vejo inutilidade nisso", prosseguiu. O irmão, marchand que vivia em Paris e acreditava no potencial do artista ainda desconhecido, leu e comentou com a mulher: "Teve essa carta de Vincent que mais uma vez achei incompreensível".
Era 23 de julho de 1890. Quatro dias depois, Van Gogh deu um tiro no próprio peito, numa casa de campo perto de Paris.
A intensa correspondência entre os dois, iniciada 18 anos antes, tornou-se célebre pouco depois da morte de Van Gogh, quase ao mesmo tempo que os quadros que o fariam ficar conhecido como um dos precursores da arte moderna.
A primeira edição das cartas aconteceu em 1914, sob os cuidados da viúva de Theo -que achou por bem evitar atribulações e tirou trechos mais ásperos sobre amigos e familiares.
Agora, quase um século depois, foi concluído com base nessas cartas o mais minucioso retrato das reflexões que envolviam o trabalho do artista.
Ele inclui os seis volumes de "Vincent van Gogh -The Letters" (Thames & Hudson), um calhamaço recém-lançado na Europa, em francês, holandês e inglês, e que pela primeira vez reúne todas as 902 cartas conhecidas de Van Gogh. As missivas também estão expostas em Amsterdã, até janeiro do ano que vem, e podem ser vistas pelo site www.vangoghletters.org, no ar há uma semana.
O que se tem é quase um monólogo de Van Gogh -que não era muito propenso a guardar cartas recebidas. Mas é o bastante para entender melhor seu "mundo interior", como diz à Folha, por telefone, Leo Jansen, um dos três curadores do Museu Van Gogh que se debruçaram sobre o material por 15 anos -15 anos de cada um deles, o que, nas contas de Jansen, dá 45 anos de trabalho.
Uma edição anterior com as cartas já havia sido traduzida para o inglês em 1958. A nova seleção tem 20 cartas a mais, além de trechos que tinham ficado de fora. Mas não foi isso o que exigiu os "45 anos" de trabalho dos curadores.
A maior diferença em relação a edições anteriores é a tradução mais precisa -que não perdoa nem os menores erros ortográficos de Van Gogh, devolvendo aqueles que outras edições haviam retirado-, as cuidadosas notas de rodapé e as mais de 2.000 imagens de pinturas citadas pelos artistas.
A conclusão a que os curadores chegaram é muito diferente da ideia comum de que a impulsividade, antes de a loucura começar de fato a prejudicar a habilidade do pintor, coincidia com momentos criativos. Van Gogh, diz Jansen, nunca teve nada a ganhar com a insanidade. "Coloquemos assim: ele era um homem louco, não era um artista louco."
As cartas mostram que o holandês não jogava qualquer coisa que fosse à sua mente nas telas. "Ele não tinha inspiração na insanidade. Era racional, metódico. Quando tinha acessos de loucura, não trabalhava. Sabia que, para escrever uma boa carta, ou fazer uma boa pintura, precisava de todo seu poder mental, e que quando estava doente perdia isso."
Literatura
Além de cartas a Theo, a correspondência inclui algumas enviadas a colegas como Paul Gauguin e Émile Bernard, e também esboços de obras que estava pintando -como o do quadro "O Semeador", que pode ser visto nesta página.
As cartas permitem ainda perceber uma conexão entre a literatura e a pintura. Van Gogh, cujas habilidades "literárias" sempre foram elogiadas, sabia citar "quase sempre com precisão" trechos de romances e poesias lidos anos antes.
"Tudo o que ele leu, tudo o que admirou, ele também tentou buscar na própria arte." Entre os mestres na literatura, Émile Zola (1840-1902) aparece com frequência. Ele gostava da obra do francês, mas não aceitava bem, por exemplo, os poemas dos simbolistas.
Assim como não dependia da loucura para criar, "ele rejeitava a ideia de artistas usarem sonhos para fazer seus poemas, ou suas pinturas. Isso não era Van Gogh. Ele precisava da realidade como ponto de partida".
A depressão que acompanhou o pouco reconhecimento de sua arte em vida, embora perceptível na última carta ao irmão, nunca é abertamente citada. O momento em que cortou o lóbulo da orelha esquerda aparece só "en passant" -o que já deu margem até para jogarem a culpa em Gauguin.

Modernismo Brasileiro - Oswald de Andrade e Pagu no Museu Lasar Segall







Foto do meio, Oswald de Andrade, Pagu e o filho de ambos, Rudá de Andrade. 1ª e 3ª fotos, Pagu.


Outra bela oportunidade para conhecermos mais sobre o Modernismo paulistano e brasileiro. Abaixo, reprodução da reportagem da Folha de São Paulo desta quarta-feira, 14 de outubro de 2009.



Jornal militante de Oswald e Pagu ganha reedição

"O Homem do Povo" foi pasquim político e gaiato dirigido pelo poeta modernista e a mulher, nos anos 30, em SP Lançamento será no sábado, no museu Lasar Segall, com exibição de documentos e obras ligados à fase mais politizada do antropófago

MARCOS AUGUSTO GONÇALVES

DA REPORTAGEM LOCAL

O dia 9 de abril de 1931 amanheceu agitado na cidade de São Paulo. Naquela quinta-feira, um grupo de estudantes da Faculdade de Direito reuniu-se na praça da Sé para protestar e atacar a sede de um periódico anarco-comunista intitulado "O Homem do Povo", que havia publicado violenta crítica à vetusta instituição de ensino.

A afronta saíra da pena do modernista Oswald de Andrade, ele mesmo um homem proveniente da elite, formado pela escola do Largo São Francisco, que qualificava de um "cancro" a minar a sociedade paulista. Ao lado de Patrícia Galvão, a Pagu, então sua mulher, Oswald era o diretor daquele pasquim político e gaiato -que ganha agora edição fac-similar, lançada pela editora Globo em parceria com a Imprensa do Estado e o Museu Lasar Segall.

Em 1984, o "insolente papelucho" já havia sido objeto de iniciativa semelhante, com apresentação do poeta e ensaísta Augusto de Campos. A nova coleção, baseada nos oito números deixados pelo militante comunista Astrojildo Pereira, amigo do casal, republica o texto de Campos e traz artigo de Geraldo Galvão Ferraz, filho de Patrícia. É publicada também uma carta inédita enviada "à camarada Pagu" por uma assídua leitora do jornal.

Lançamento

O lançamento vai acontecer no sábado, com a abertura de uma exposição no museu Lasar Segall -com curadoria da pesquisadora Gênese Andrade.

O ataque dos estudantes à sede de "O Homem do Povo", que ficava no Palacete Rolim, no número 9 da praça da Sé, repetiu-se na segunda dia 13 de abril. Os incidentes foram acompanhados pela imprensa.

"Um justo revide dos estudantes de direito contra os ataques de um antropófago" -foi a manchete da "Folha da Noite" do dia 9, que fazia referência à antropofagia, a "filosofia do primitivo tecnizado", desenvolvida alguns anos antes pelo poeta que lançou, em 1928, o "Manifesto Antropófago".

Os jornais narraram "a depredação nos escritórios da redação" e a providencial intervenção da polícia, que impediu o iminente linchamento dos diretores. No dia 13, Oswald voltara ao ataque em novo artigo, com seu humor ferino: "A grande manifestação de pensamento que produziu até hoje a Faculdade de Direito foi o trote".

Segundo a "Folha da Noite", no segundo dia de manifestação, Pagu surgiu inesperadamente à porta do prédio -e, para espanto geral, "vinha armada com revólver, com o qual fez dois disparos em direção aos estudantes". Ela teria, ainda, atacado manifestantes a unhadas enquanto era conduzida com Oswald para a central de polícia -e o jornal tinha sua breve carreira encerrada.

Romance

O lançamento de "O Homem do Povo" é um marco na fase politizada de Oswald. Numa época de rompimentos, inclusive com velhos amigos, filiou-se ao Partido Comunista, puxado pela nova e sedutora companheira, que posteriormente veio a ser presa e sofrer violências no cárcere.

Quando "O Homem do Povo" foi lançado, Oswald tinha 41 anos de idade e Pagu, 21. O romance teve início quando ele ainda era casado com a pintora Tarsila do Amaral. Foi o poeta Raul Bopp quem apresentou a então jovem normalista ao casal "Tarsiwald" -como foi apelidado por Mário de Andrade. Pagu tornou-se amiga de ambos e acabou nos braços do antropófago.

Segundo a curadora Gênese Andrade, que assina o catálogo da mostra, quando Tarsila faz sua primeira exposição individual brasileira, no Rio, em julho de 1929, "o antropófago e a normalista já haviam iniciado uma relação amorosa".

O fato está registrado em uma espécie de diário do novo casal, intitulado "O Romance da Época Anarquista. Livro das Horas de Pagu que São Minhas". O caderno de anotações estará exibido numa vitrine, no Lasar Segall -e 13 de suas páginas serão projetadas num monitor de vídeo.

Pinturas e documentos inéditos do casal ganham mostra no Lasar Segall

DA REPORTAGEM LOCAL

A mostra que será inaugurada sábado no museu Lasar Segall concentra-se na fase mais politizada do modernista Oswald de Andrade e em suas relações com Patrícia Galvão e o próprio pintor Lasar Segall, de quem o poeta se reaproxima depois de deixar o Partido Comunista, em 1945. São 60 peças, das quais 19 pinturas e 11 fotografias, além de documentos, cartas e primeiras edições -entre elas a da peça "O Rei da Vela", de 1933.

Gênese Andrade, pesquisadora e curadora da mostra, é responsável pelo estabelecimento dos textos publicados na reedição das obras do poeta, que vem sendo realizada pela editora Globo. Nas pesquisas que fez, Gênese encontrou material inédito. Será exibido, por exemplo, um passaporte de Pagu, datado de setembro de 1929, com o nome Patrícia Galvão de Andrade. É uma evidência de que a relação com Oswald, que era casado com Tarsila do Amaral, já estava adiantada, e uma sugestão de que ambos poderiam ter planos de deixar o país. O casamento, na realidade, só ocorreu em janeiro de 1930.

Entre as pinturas que integram a exposição, há três retratos de Oswald assinados por Lasar Segall, jamais expostos. Serão mostrados, ainda, pela primeira vez, alguns desenhos de Pagu. São quatro deles, três dos quais estavam na coleção de artes visuais de Mário de Andrade -embora não se saiba exatamente como o poeta veio a possuí-los, uma vez que sua relação com Oswald fora interrompida.

O período mais politizado do antropófago, a partir da virada dos anos 20 para os 30, coincide com a crise mundial e é marcado por desentendimentos com ex-amigos. O poeta ironiza Mário, que chama de "Miss Macunaíma", briga com Paulo Prado, mecenas da Semana de 22, e, diante da recusa de dona Olívia Guedes Penteado de recebê-lo com Pagu, passa a tratá-la como dona Azeitona.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

História da Indumentária - Antiguidade









Cinto de linho de Ramsés III





Egito

Produção de peças de vestuário


A confecção de roupas era, aparentemente, um trabalho feminino, geralmente feito em casa. Entretanto, havia oficinas dirigidas por nobres e outros homens ricos.

O linho era o mais importante têxtil no Egito, produzido pela fibra vegetal Linum Usitatissimum. Do linho eram fabricados desde os mais finos tecidos feitos para a realeza até os panos grosseiros utilizados pelos camponeses. Pessoas sepultadas em mastabas ou pirâmides, das mais altas camadas sociais, usavam apenas roupas de linho da mais alta qualidade, tanto na vida quanto na morte. Pepi I teve uma visão na qual seu ka (alma) "seria arrebatada para os céus, para juntos dos nobres amados pelos seus deuses, altos guardiães do Alto Egito, que se vestem com roupas de linho, que comem figos e bebem vinhos e se ungem com o melhor dos óleos" (Discurso 440, Textos de magia das Pirâmides, Reino Antigo, Thesaurus Linguae Aegyptiae website/Altägyptisches Wörterbuch, Berlin-Brandenburgische Akademie der Wissenschaften).

Se uma pessoa tivesse sorte ela "seria como um presente dado ao rei, um traje feito de fino e bom linho indestrutível", segundo um texto de um papiro do Novo Reino (fonte citada acima).

Os primeiros estágios da produção de linho eram realizados pelos homens. Eles colhiam as plantas, e depois batiam e penteavam-nas para extrair delas as fibras têxteis. As fibras eram desfiadas em fusos, a primeira fase do trabalho feminino. Quando o pano ainda era tecido em teares horizontais, que muitas vezes consistiam de simples estacas, junto às quais as tecelãs deviam se agachar, este era normalmente um trabalho feminino. Durante o Novo Reino foram inventados os teares verticais, que exigiam mais força física e em geral eram operados por homens.

Como a costura das roupas era muito trabalhosa e a arte da alfaiataria ainda estava em seus primórdios – apesar dos vestidos super-ajustados que as mulheres incrivelmente esguias usam nas representações egípcias (uma espécie de ‘liberdade artística’) – muitas peças de vestuário consistiam simplesmente em peças retangulares de tecido envoltos ao corpo e presos por cintos. As roupas tinham acabamentos cuja função era evitar o seu desgaste, como bainhas simples, decoradas e até laminadas. Às vezes os trajes tinham várias partes, que tinham que ser costuradas sobre os ombros, tais como mangas e golas para os ombros. Os tipos de costura utilizados eram em geral simples ou dobradas, embora também fossem conhecidas a costura sobreposta e a debruada. O número de diferentes tipos de pontos de costura também era limitado: ponto corrido ou ponto de alinhavo (running stitch), ponto de debrum e ponto corrente torcido.

Os instrumentos e ferramentas de costura utilizados, como facas e agulhas, mudaram no decorrer dos séculos. As lâminas eram feitas de pedra durante o Neolítico, e depois fabricadas em cobre, em bronze (durante o Reinado Médio) e finalmente de ferro, apesar de as facas de sílex, de bordas mais afiadas que as de ferro continuar sendo usadas (minoritariamente) até a época romana. As agulhas eram feitas de madeira, osso e metal. Os egípcios conseguiram fazer olhos de agulhas de cobre com apenas um milímetro de espessura. As tesouras começaram a ser usadas em geral no final da história do Egito, embora tenha sido conhecida desde o II milênio antes de Cristo.


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

História da Indumentária - Antiguidade






Tutancâmon e sua rainha, XVIII Dinastia, 1.350-1.340 a.C.

Egito (4)


Por higiene, os homens raspavam a cabeça e usavam um quadrado de tecido listrado que circundava as têmporas e formava pregas quadradas sobre as orelhas.
Nas cerimônias, homens e mulheres usavam perucas, feitas de cabelo natural ou fibras de linho ou palmeira.
Jovens princesas retratadas em afrescos também tinham a cabeça raspada.
Mulheres maduras: cabelos frisados ou ondulados.
Os egípcios não usavam chapéus. Os faraós usam uma coroa dupla “a coroa do Norte e a coroa do Sul”, uma delas com a forma de um pequeno círculo e a outra com a forma de um elmo cônico.
As roupas reais eram diferentes das usadas pelos egípcios comuns. Eram de tecido mais fino, com cintos bordados e golas de ouro e esmalte.

História da Indumentária - Antiguidade











2ª imagem de baixo para cima - Faraó Akenaton e sua esposa Nefertiti, 1.550-1.330 a.C. O rei usa o chanti ou saiote de tecido fino pregueado: a rainha usa a túnica longa ou haik, amarrada à cintura. Ambos usam golas grandes ornadas com contas e pregas.


Egito (3)


Nas esculturas e pinturas as roupas femininas são representadas de forma mais justa que na realidade.
Uma capa curta às vezes cobria os ombros ou o pescoço era rodeado por uma gola larga, adornada com jóias, deixando os seios descobertos.
Usavam pouco a lã (fibras animais eram consideradas impuras). O linho era o tecido mais usado, sobretudo pelas classes altas. Os egípcios tinham padrões de higiene muito elevados: as roupas de linho podiam ser facilmente lavadas.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

História da Indumentária - Antiguidade







Egito (2)


Pessoas das classes mais baixas e os escravos do palácio andavam quase ou completamente nus.

O uso de roupas era uma forma de distinção de classe.

Durante o Antigo Império (2649 a 2134 a.C.), o traje característico era o chanti, pedaço de tecido usado como tanga e preso por um cinto.

Para os reis e os dignitários era pregueado e engomado, e às vezes bordado.

No Novo Império (1550-1070 a.C.) os faraós também usavam uma túnica longa com franjas chamada calasires, semitransparente, deixando ver o chanti por baixo. (Ver três primeiras figuras).

A calasires era feita de um pano retangular, às vezes tecido em uma só peça – quando usado pelas mulheres, produzia um efeito ajustado sob os seios – e presa aos ombros por alças.

domingo, 4 de outubro de 2009

História da Indumentária - Antiguidade




EGITO (1)


A civilização egípcia se desenvolveu em um longo período histórico que vai do IV Milênio ao século VI a.C. A indumentária egípcia segue as características de longevidade e estabilidade da civilização como um todo: há poucas mudanças ao longo de 3.500 anos. As mudanças mais significativas acontecem em períodos de invasões estrangeiras. A vestimenta egípcia é mais leve e sumária que as da Assíria e Babilônia.


Materiais para o vestuário

O clima egípcio, com seus verões quentes e invernos suaves, era adequado às roupas leves feitas de fibras vegetais, predominando o linho e, na época da dominação romana, ocasionalmente usando algodão importado da Índia.
A lã era usada em menor escala e raramente era considerada adequada pelos egípcios.
Pequenas quantidades de seda eram negociadas no Mediterrâneo oriental, e já são encontradas na segunda metade do 2° milênio a.C. em túmulos egípcios.
Peles de animais, sobretudo de leopardos às vezes eram usadas pelos sacerdotes e faraós ao desempenharem suas funções religiosas. Estas peles rituais foram encontradas na tumba de Tutancâmon e eram retratadas com bastante frequência nas paredes dos túmulos. Algumas vezes, reis e rainhas usavam trajes cerimoniais adornados com plumas.





quarta-feira, 30 de setembro de 2009

História da Indumentária - Antiguidade



Sugestão de bibliografia para indumentária na Mesopotâmia:


NEMET-NEJAT, Karen Rhea. Daily Life in Ancient Mesopotamia. Westport, CT: Greenwood Press, 1998.


PAYNE, Blanche. History of Costume: From the Ancient Egyptians to the Twentieth Century. New York: Harper and Row, 1965.